O som que mora em mim: quando o silêncio encontra uma voz e se transforma em pertencimento. — Entrevista com Márcia M. Marques.
Em O Som Que Mora em Mim, Márcia M. Marques transforma experiências de silenciamento, rejeição e dificuldade de pertencimento em uma história atravessada pela arte, pela música e pela busca de autoconhecimento. No centro dessa narrativa está Clara, uma mulher que tenta compreender a si mesma e os códigos invisíveis das relações ao seu redor.
A trajetória profissional da autora também se conecta diretamente aos temas da obra. Pedagoga e gestora ambiental, Márcia passou 11 anos atuando no terceiro setor com educação e ação comunitária e outros três anos desenvolvendo projetos culturais e socioambientais. Essas experiências a colocaram em contato com questões como dignidade, equidade, invisibilidade e direito à voz — temas que acabaram encontrando espaço em sua literatura.
Nesta entrevista, Márcia M. Marques fala sobre a origem de Clara, a presença da música e do balé na construção da narrativa, as relações familiares e afetivas da protagonista, além das descobertas que surgiram durante a escrita. A autora também revela o que espera que permaneça com o leitor depois da última página: a compreensão de que ninguém deveria precisar silenciar a própria essência para encontrar um lugar no mundo.
Entrevista
1. Antes de falarmos sobre o livro, queria conhecer um pouco da mulher por trás dele. Como a sua trajetória pessoal e profissional foi levando você até a literatura e, principalmente, até o momento em que decidiu colocar uma história como O Som Que Mora em Mim no papel?
Márcia M. Marques: A minha escrita não existe isolada; ela vem de uma teia de vozes e vivências que fui absorvendo pela vida. Passei 11 anos no terceiro setor trabalhando com educação e ação comunitária, e depois mais três desenvolvendo projetos culturais e socioambientais. Isso me colocou cara a cara com a luta por dignidade, por equidade e pelo direito de ter voz. Testemunhei de perto a dor da invisibilidade, a vergonha familiar e o apagamento de ideias, coisas que eu também trago na pele.
Como pedagoga, gestora ambiental e mulher, vi na literatura o espaço perfeito para dar vazão a tudo isso. O Som Que Mora em Mim não nasceu de um estalo de inspiração, mas de pura necessidade. Minha e de tantas pessoas — em especial da comunidade LGBTQIA+, de pessoas neurodivergentes e de todas as existências que lidam com a rejeição estética, o bullying e a estigmatização de seus corpos — que aprenderam muito cedo que existir fora do padrão custa caro. Escrevi para dar nome ao que sobra quando a gente se cala e para transformar esse silêncio em pertencimento.
2. Há histórias que começam com uma ideia muito clara e outras que vão encontrando seu caminho enquanto são escritas. No seu caso, você se lembra de qual foi a primeira cena, imagem ou situação que fez Clara começar a existir para você?
Márcia M. Marques: A Clara começou a tomar forma para mim através de um contraste sensorial muito forte: de um lado, a rigidez e a precisão do balé clássico; do outro, o caos e a sobrecarga de um mundo que não sabe acolher.
Antes de virar uma história completa, a Clara era só a visão de uma mulher tentando decifrar os códigos invisíveis das relações ao redor, buscando refúgio no diário e no movimento do corpo através da arte. A cena no metrô — aquele ambiente frio, impessoal, onde o barulho, os cheiros e a dor de uma estranha se cruzam com os nossos próprios gatilhos — foi o ponto de virada para eu entender como seria a jornada de cura e autodescoberta dela.
3. A música está presente não apenas no título, mas na própria atmosfera da obra. Você pensou primeiro na história e depois encontrou essa musicalidade, ou a ideia de som, ritmo e silêncio já fazia parte da narrativa desde o começo?
Márcia M. Marques: A ideia de som foi o alicerce do livro desde a primeira linha. Antes mesmo de virar um projeto transmídia, essa musicalidade já estava lá, escondida na dor do silenciamento — aquele silêncio engolido que a gente aprende a fazer por sobrevivência.
O ritmo e a música surgem como uma resposta a esse sufoco. O balé trouxe métrica e organização para a bagunça interna da Clara, e o som deu conta do que a palavra não conseguia traduzir. Tudo isso fluiu de forma tão orgânica que fez todo sentido expandir essa experiência, trazendo citações musicais nos capítulos, playlists por QR Code e uma faixa autoral feita sob medida para traduzir em som o autismo feminino e a camuflagem social para tentar se encaixar.
4. Clara encontra na arte uma maneira de colocar para fora coisas que nem sempre consegue dizer de outras formas. Enquanto escrevia, aconteceu de você descobrir algo sobre a personagem que não estava planejado inicialmente?
Márcia M. Marques: Conforme fui escrevendo, percebi que a força da Clara estava justamente onde ela parecia mais vulnerável. No começo, a família a enxergava como alguém frágil, "a peça do quebra-cabeça que não encaixa", mas ela se provou a personagem mais resistente ali.
Outra surpresa foi o diário. Ele começou como um desabafo pessoal, mas acabou virando um verdadeiro manual de empatia. A forma detalhada como a personagem explica suas percepções, seus limites e seu jeito de processar o mundo não estava nos meus planos iniciais; simplesmente foi surgindo conforme ela exigia o direito de ser compreendida por inteiro.
5. Existe uma delicadeza muito particular na maneira como você trabalha as relações da protagonista, especialmente quando entram em cena afeto, família e a rejeição. Foi difícil decidir o que deveria ser dito diretamente e o que funcionaria melhor nas entrelinhas?
Márcia M. Marques: Trabalhar essas dinâmicas familiares e afetivas exigiu muita escuta. Relações marcadas por rejeição, abandono emocional ou abusos velados — como o impacto do diagnóstico na família ou as marcas da ex-namorada — acontecem quase sempre no terreno do não dito.
A estrutura não linear e os trechos do diário me ajudaram a dosar isso. O texto direto mostra a crueldade e a dor nítida do trauma, enquanto o subtexto carrega a desaprovação silenciosa, os olhares e o luto que ninguém reconhece. Esse jogo de luz e sombra permitiu tocar em feridas profundas, como capacitismo e homofobia, mantendo a sensibilidade sem cair no drama apelativo.
6. Depois de terminar o livro e se afastar um pouco da história, houve alguma coisa em O Som Que Mora em Mim que passou a ser vista de maneira diferente por você? E o que você espera que o leitor perceba ou leve consigo depois de acompanhar a trajetória de Clara?
Márcia M. Marques: Olhando para o livro pronto, entendi que O Som Que Mora em Mim vai além da trajetória individual da Clara. Ele acabou se tornando um espaço de acolhimento e um manifesto sobre a coragem de bancar a própria voz.
Quero que o leitor encontre na história duas coisas: um espelho e uma janela. Um espelho para quem precisa saber que não está sozinho e que a sua voz tem valor; e uma janela para quem quer aprender a olhar para o outro com empatia real. Espero que cada leitor, ao terminar a última página, reconheça o valor da sua própria essência. Que entenda que a diferença não é um fardo, e que todos nós merecemos um lugar no mundo onde o nosso som não precise ser calado para pertencer.
Sobre o livro
O Som Que Mora em Mim acompanha Clara em uma jornada de cura, autodescoberta e busca por pertencimento. Entre o balé, a música, o diário e as relações que atravessam sua vida, a personagem precisa lidar com as marcas do silenciamento, da rejeição e da dificuldade de ser compreendida. A obra também explora questões relacionadas ao autismo feminino, à camuflagem social, ao capacitismo, à homofobia e à necessidade de encontrar uma forma própria de existir sem precisar apagar a própria voz.
Sobre a autora
Márcia M. Marques é escritora, pedagoga e gestora ambiental. Atuou durante 11 anos no terceiro setor, trabalhando com educação e ação comunitária, e posteriormente desenvolveu projetos culturais e socioambientais. Sua trajetória profissional e suas experiências pessoais atravessam sua escrita, especialmente na abordagem de temas relacionados à dignidade, equidade, pertencimento, invisibilidade e direito à voz.
Em O Som Que Mora em Mim, encontrou na literatura uma forma de transformar experiências de silenciamento em narrativa e de criar um espaço de acolhimento para pessoas que convivem com rejeição, bullying, estigmatização e a pressão para se enquadrar em determinados padrões.

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